A história da dança ocidental carrega uma herança pesada: a romantização do sacrifício e a invisibilidade do desgaste. Crescemos ouvindo que “a dor valida o processo”, que “o esgotamento mede o sucesso” e que “para alcançar a excelência, o artista deve silenciar o próprio corpo”. Contudo, quando analisamos a preparação e a rotina de ensaios de artistas reais sob a lente dos dignidade humana, o cenário muda de figura: nenhuma medalha justifica o adoecimento de quem dá vida à arte.
Como pesquisadora em Direito e profissional da área, entendo que precisamos transpor para a dança um conceito urgente da academia: a Saúde Mental Relacionada ao Trabalho (SMRT). A intensidade técnica exigida nas salas de ensaio e a pressão psicológica das competições tradicionais configuram um ambiente de alta vulnerabilidade psicossocial. Cobranças estéticas severas e jornadas exaustivas, muitas vezes disfarçadas de "disciplina", operam como fatores de risco para o esgotamento e a ansiedade. Tratar a alta performance como justificativa para a negligência com a saúde é uma falha ética e jurídica com a dignidade do artista. É também por isso que a nossa direção no Aplausos recusa aceitar e aplicar o formato tradicional de “competição”. Palavra que por si só já é uma escolha lexical equivocada, que alimenta rivalidades e gera uma ansiedade paralisante, transmite a ideia de que qualquer erro técnico parece uma sentença definitiva ao fracasso. O festival não pode ser um vetor de adoecimento. Ele deve funcionar como um espaço de confluência pedagógica e proteção, onde o processo inteiro, incluindo o tempo e os limites biológicos e psicológicos de cada corpo, é genuinamente respeitado.
Conciliar a intensidade técnica com a preservação da SMRT exige ações práticas nos bastidores. Significa estruturar bancas de avaliadores que ofereçam feedbacks técnicos que orientam e emancipam o estudante, em vez de julgamentos que diminuam sua integridade. Significa, também, desenhar ambientes de bastidores onde grupos diferentes compartilhem o espaço com empatia e colaboração, substituindo o clima de hostilidade pelo reconhecimento mútuo do trabalho. O aprendizado real só se consolida onde existe segurança psicológica para arriscar. Olhar para a rotina da dança pela lente dos direitos humanos é entender que o trabalhador da arte também sente, esgota e precisa de salvaguardas. Não podemos continuar aplaudindo o espetáculo na frente das cortinas se ignoramos os nexos causais do sofrimento emocional de quem está atrás delas.
Nosso compromisso é construir uma dança que signifique autonomia, e não aprisionamento; coletividade, e não isolamento. Que os festivais se destaquem pela profundidade do respeito e pela responsabilidade com a saúde e pela dignidade de nossos artistas.